Você já reparou que tudo são palavras?
Se você pegar uma palavra, como “perfeito”, e se perguntar por que ela é usada e de onde ela veio; em seguida, repeti-la dezenas de vezes, você vai perceber o quanto ela não tem sentido “por ela mesma”. A palavra “perfeito” não é aquilo a que ela denomina.
Eu duvido que você seja capaz de beber a palavra “água”. Ou que consiga comer a palavra “arroz”.
Você não é capaz de comer “arroz”, nem beber “água”, mas é capaz de comer e beber aquilo a que elas nomeiam. Aquela coisa sem cheiro, sem cor, e a outra, que é um monte de coisinhas.
O mais louco é que você também não é capaz de se referir ao “arroz” ou à “água” sem usar uma palavra qualquer. O arroz não é só “arroz”, ele também é “branco” e “pequeno”, podendo ou não estar “salgado”. Você pode pintar o tal “arroz”, mas não é uma solução nada prática.
A verdade é que aquilo que você bebe não precisa chamar “água”. O nome não é a coisa!
Ou é?
Se alguém disser que você é um “idiota”, você vai se sentir ofendido?
Pense bem, já é difícil acreditar que “água” é água, imagine então algo como uma opinião. Uma porta é “bonita” na boca de um e “feia” na boca de outro. E o seu sobrinho está “grande” ou não “cresceu nada”?
Os adjetivos, além de carregarem o problema de não serem o que nomeiam, são ainda mais pesados por serem opiniões. É assim que a mesma pessoa é “idiota” ou “inteligente”.
Acho que tudo isso mostra que a palavra não é a coisa.
Ou é?
Lembra que te chamaram de “idiota”? E aí, você se sente ofendido ou não?
Imagine que a pessoa que te ofendeu de “idiota” é a pessoa a quem você ama. Aposto que essa ofensa doeria mais do que um pisão no pé, talvez até mais do que um tapa na cara.
É difícil de entender que isso seja possível… As palavras não são as coisas, afinal!
Acontece que as palavras não são as coisas,
mas se parecem muito com elas!
São semelhantes o suficiente para machucar ou alegrar, mas não tão parecidas a ponto de podermos comer “arroz”.
Por que isso acontece?
Porque nosso corpo é meio burro. Bom, mais ou menos isso. Quando você aprendeu a palavra “água”, devia estar vendo água, ou então com sede, e aí dizia “água” e ganhava a dita cuja.
Quando alguém dizia que você era “bacana”, “gente boa”, ou “o cara”, aposto que quem dizia isso olhava nos seus olhos, tocava seu ombro, sorria, fazia uma cara legal, etc.
De forma semelhante, toda vez que te chamavam de “idiota”, usavam um tom de voz ríspido, com uma cara nada amigável, e provavelmente te davam as costas.
Essa é a história.
As palavras ficam impregnadas com a situação em que elas apareceram. Nosso corpo, para o bem ou para o mal, faz um pareamento entre a situação e a palavra.
Daí acontece que o corpo reage à palavra do mesmo modo como reage à situação. Doido, né?
Aposto que quando você está com fome, é gostoso falar de comida. E que apenas o nome da pessoa a quem você ama é capaz de te deixar meio bobo.
Se você tivesse aprendido a palavra “martelo” em um clima agradável, com pessoas rindo à sua volta, e te dando doces e coisas que você gostava, você adoraria ouvir “martelo”, ainda mais mais se saísse de uma boca amada.
E isso explica tudo: pareamento situação-palavra, emoção-palavra, necessidade-palavra. Ê mundão humano!
Eu sempre tento me lembrar de que as palavras apenas parecem as coisas, mas não são. Sempre mesmo. Ajuda a não ser enganado.
Por exemplo, quando eu ouço “pessoas com cara comprida são burras”, eu não caio nessa. Primeiro, porque “caras compridas” é um adjetivo que reflete uma opinião. Segundo, porque ocorre o mesmo com “são burras”. Na verdade, se ouço isso, começo a desconfiar que “burro” é quem falou a frase.
Acabou.
PS: Reza a lenda que há muito tempo atrás um garoto estava sendo perseguido por um “lobo”. Virou o animal do avesso e comeu um delicioso “bolo”.

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July 25th, 2007 at 11:12 am
Palavras são realmente importantes. Principalmente as cacofonias! Não entendeu? Veja o nome do seu blog, em muitos lugares do Brasil ele remete a outro sentido.
Resposta:
O nome do meu blog remete a outro sentido mesmo, eu fiz de propósito.
Na real, eu ia chamar o blog de “o homem é imundo”.
Foi aí que eu vi a possibilidade de “homem e mundo”. Além de ser mais legal, combinava com o antigo “Neurônio e Mundo”.
Coisa linda.
Abraço.
PS: Agora, se não foi esse sentido que você quis dizer, estou curioso.
July 25th, 2007 at 12:08 pm
Você é demais (eu sei, sou uma puxa saco desgraçada, mas fazer o que se é verdade!)
O texto está demais! Didático, bem escrito e com boa argumentação. Adorei!
Ah… você está bem acompanhado (Além do “papai” Skinner rs):
“Que há em um simples nome? O que chamamos de rosa sobre outra designação teria igual perfume.” Shakespeare (trecho de Romeu e Julieta)
beijos
Resposta:
Essa frase do Skakeshake é muito boa mesmo!
Valeu pelo elogio!!!
Beijão!
July 25th, 2007 at 3:49 pm
Rapaz,
não conhecia o seu blog! Muito bom, textos muito interessantes e bem escritos!!
Sobre “as palavras e as coisas”, sei que este é o título de um livro do Foucault. Mas só são palavras.
Abraço!
Resposta:
Valeu, Leandro.
Um abração.
July 25th, 2007 at 5:35 pm
Hmmm, tô cheirando ‘Comportamento Verbal’, de Skinner, na parada; é isso? ;))
Resposta:
Exatamente, Catatau.
Você conhece o livro?
Abraço.
July 26th, 2007 at 12:00 am
Pois é, eu vim aqui para deixar uma outra que lembrei e era bem legal… mas acho que não anotei, então deixo essa:
“As tantas, o infante Jesus acordou, mas agora a valer, que antes mal abrira os olhos quando sua mãe o enfaixara para a viagem, e pediu alimento com sua voz de choro, única que ainda tem. Um dia, como qualquer de nós, outras vozes virá a aprender, graças às quais saberá exprimir outras fomes e experimentar outras lágrimas” (p. 95-96) José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Beijos
Resposta:
Muito bom!
Nunca li Saramago… É algo que preciso fazer um dia.
Beijo.
July 26th, 2007 at 12:02 pm
Esse mesmo
July 27th, 2007 at 2:03 pm
Opa, conheço sim. Estou distante desse livro, já fazem uns 6 ou 7 anos, mas na época estava bem interessado na diferença da noção de linguagem entre cognitivistas e behavioristas… Aí estudei sobre o cpta/ verbal. Um livro muito interessante!
um abraço,
July 27th, 2007 at 10:47 pm
Ah, então você é dessa grande área mãe de tantos filhos, a Psicologia?
Como você deve ter notado, sou analista do comportamento de carteirinha!
Abraço!
July 28th, 2007 at 2:07 pm
E viva Foucault! hhehe
Se vc lê em inglês, deveria passar os olhos por TIME OUT OF JOINT, de Philip K. Dick. Tenho certeza q ia adorar e ia ter mais idéias sobre esse tema.
July 29th, 2007 at 4:17 pm
Oi, Anderson.
Engraçado você falar de Foucault… Eu escrevi este baseado em afirmações do livro O Comportamento Verbal, de Skinner.
Será que os dois autores falam coisas parecidas?
Abraço.