Ser um cientista, ou pensar como um, é ter a coragem de abandonar-se… Tem-se que se curvar aos fatos.

Se suas idéias mais queridas, se os seus esforços mais profundos, se o seu trabalho mais intenso não forem suportados pelos fatos, é preciso abandonar-se. Senta-se e escreve-se cuidadosamente sobre o erro, cada detalhe, para que ninguém o cometa novamente. Errar, na ciência, é também desbravar.

É bonito de dizer, mas doloroso de fazer. Os que erram não são repudiados, mas o que acertam ganham o mundo. A ciência e o cientista acabam quando o apego a si mesmo faz dos fatos algo secundário. Colocar-se acima dos dados é corrupção. É difícil confessar o erro do próprio trabalho: somos, em grande parte, o que fazemos.

Abandonar-se, deste modo nobre, é uma das grandes qualidades da ciência. Admitir o erro e propor soluções é humildade a serviço do homem. Encobrir o erro, em um empreendimento coletivo como a ciência, produz um efeito dominó: outros errarão baseados na mentira original. Abandonar o próprio esforço, alertando aos colegas sobre as falhas, demonstra respeito pelo trabalho alheio.

Os que se apegam terminam por explicar tudo, como se fosse possível. Criam teorias buraco-negro: que a tudo atraem, adaptando o mundo às suas palavras e não o oposto. Qualquer idéia que explica tudo está invariavelmente errada: é o trabalho de um ego e não de um pensador.

7 Responses to “o exercício do abandono na ciência”
  1. _Maga says:

    Esse texto está demais, demais!!! É uma homenagem ao cientista, e é, também, muito didático. Deveria ser lida pelos alunos na faculdade!!

    Demais Robson.

    Beijos

  2. faggiani says:

    Valeu, Maga!
    Estou com mania de divulgar ciência e AC.
    Que Deus me ajude. hehehe
    Beijos.

  3. Catatau says:

    É a boa e velha honestidade do pesquisador, rssss

    E adicionaria um elemento diante dos fatos: os conceitos. O pesquisador tem os fatos de um lado, e os conceitos que geram os fatos, de outro. No fim das contas, até a lente que enxerga os fatos provém dos conceitos. Daí a honestidade do pesquisador se desdobra em duas: às vezes cabe aceitar os fatos, ou em outras, mudar os conceitos…

    abração,

  4. faggiani says:

    Bem acrescentado, Catatau.
    Pode-se dizer também que quando o conceito começa uma expansão absurda, é sinal de que há problemas. Todos os fatos começam a ser acomodados.
    Abraço.

  5. Márcio Pimenta says:

    Bela reflexão! Mas devo dizer que há uma certa mirada romântica (que eu compartilho), por que a ciência muitas vezes não é neutra. A ideologia está muito presente nas ciências também.

    Abraços!

  6. faggiani says:

    A ideologia está presente, sim…
    Mas eu a vejo como uma conseqüência da desonestidade científica.
    A ciência “pura” é impossível, mas devemos almejá-la.
    Abração.

  7. carlo says:

    meu, tambem to nessa de escrever tese e tals. o que mais me intriga eh que por menos que a gente faça, eh sempre o ego do pensador que tah rolando. andei lendo um dicionario de simbologia (chevalier & gheerbrant). se tiver por aih, dah uma olhada no verbete cruz. teh mais!

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