Archive for the “Crítica” Category
A edição de agosto da revista super-interessante fala sobre Pensamento Positivo. É uma matéria honesta, mas deixa algumas pontas soltas. Pretendo falar sobre um tipo específico de livros de auto-ajuda: os que prometem mudanças de dentro para fora, como se o mundo fosse um detalhe não importante.
De forma resumida, os falsos-gurus da auto-ajuda afirmam que o pensamento positivo pode mudar a vida das pessoas. Alguns vão mais longe e defendem a idéia de que o pensamento pode afetar a matéria, ou seja, de que eventos mentais modificam eventos materiais. Para embasar muitas de suas afirmações, os caça-níqueis se apropriam de conceitos da física quântica. Utilizando como principal arsenal frases de efeito repletas de promessas de vida melhor, os falsos gurus se promovem desonestamente, explorando a necessidade das pessoas de mudarem suas condições de vida.
Eis alguns pontos que não podem ser ignorados.
- Não há nenhuma evidência científica de que a mente pode mudar a matéria, ou atrair bons acontecimentos. Na verdade, não existe evidência científica nem mesmo da existência da mente. Ninguém ainda encontrou uma definição unânime do significado da consciência, da mente, de eventos mentais, etc. Ou seja, os pseudo-gurus defendem suas idéias com argumentos pseudo-científicos.
- Os físicos quânticos fizeram suas afirmações se referindo a acontecimentos no nível sub-atômico, nada pode ser generalizado para níveis maiores, e muito menos para eventos “mentais” cuja existência ainda não foi reconhecida.
- Atualmente, a tendência é não dividir o homem em mente/corpo ou em pensamento/comportamento. Os humanos têm sido entendidos como entidades inteiras, em que tais divisões não cabem. Sendo assim, os tais eventos mentais que mudam o mundo não existem, realmente. O que existe é uma pessoa inteira emitindo comportamentos de pensar diferentes.
- Sendo pensamento comportamento privado (que só quem pensa vê), é possível afirmar que comportamento privado influencia comportamento público (que outras pessoas podem ver). No entanto, ambos estão sob controle do ambiente. Nenhum pensamento ocorre no vácuo, há sempre um contexto em que ele foi produzido, e é o mesmo contexto do comportamento público.
- Portanto, ou muda-se o contexto ambiental da pessoa, ou a pessoa não mudará.
- O que quero dizer é: ninguém vai mudar apenas por ler algo bacana em um livro. Qualquer pessoa só mudará se estiver se relacionando com contextos ambientes que favoreçam a mudança. E
- Um contexto ambiental adequado, como oportunidade de emprego e encorajamento da pessoa amada, modifica não apenas o comportamento público, mas também o comportamento privado (pensamento).
- Comportamentos e pensamentos são produzidos pela história de vida e pelas condições ambientais de cada pessoa. Alguém que a vida toda foi chamado de “fraco”, só terá um pensamento positivo sobre si mesmo quando passar a ser reconhecido por seus atos (ambiente favorável). Da mesma forma, alguém que sempre foi prestigiado por seus efeitos e apenas ouviu palavras amáveis dificilmente pensará negativamente. Ou seja, a ordem das coisas é inversa: primordialmente, o ambiente molda pensamentos e não vice-versa.
- Uma idéia nova apresentada por alguém, a leitura de um livro, uma palavra de encorajamento podem produzir algum comportamento público produtivo (comportamento privado apenas não adianta), mas tal comportamento só continuará a ocorrer e a se generalizar para outras áreas da vida se produzir resultados importantes para a pessoa.
- No fim das contas, o que controla o que a pessoa faz são os resultados desse fazer! E não um comportamento privado dito “positivo”.
Bom, no fim, não há muito segredo, a não ser este: pensamento positivo não muda realidade.
Leituras complementares:
Blog Bestseller da Vez: No blog, um psicólogo descreve o conteúdo de livros de auto-ajuda. Mostra o quão iguais ou diferentes uns são dos outros. Muito bom.
A série “Adeus, Mente”: Dessa vez sou eu que solto o verbo mostrando por que a mente não está mais entre as preocupações de uma boa porção dos psicólogos. Infelizmente, a série ainda não está terminada, mas já é possível ver coisas interessantes. Toda a categoria está dedicada a explicar análise do comportamento.
Críticas ao filme “Quem Somos Nós”: Esse filme é um representante da pseudo-ciência dos pseudo-gurus.
É isso aí.
7 Comments »
No post anterior falei sobre os primórdios filosóficos, com um viés impossível de ser filtrado. Apesar do viés, o texto simples mostrava como diferentes correntes filosóficas basearam as primeiras idéias da Psicologia. Outras concepções filosóficas aparecerão em capítulos posteriores.
Neste post, é hora de descrever como a Biologia influenciou a Psicologia. Novamente, a fonte é o livro “História da Psicologia Moderna”, de Schultz e Schultz.
Diz-se que tudo começou na astronomia. Alguns cientistas perceberam que as medidas de fenômenos variavam de experimentador para experimentador. Depois de testes, perceberam que cada pessoa tinha tempos de reações diferentes ao lidar com fenômenos. Isso produziu um paradigma presente em qualquer boa ciência: o observador interfere no fenômeno (ao menos, em sua mensuração).
No princípio, havia a idéia simples de que diferentes nervos eram excitados de formas diferentes e, portanto, produziam “comportamentos” diferentes. Marshall Hall observou que animais decapitados continuavam com alguns reflexos, quando os estímulos corretos eram programados. A partir disso, ele concluiu que cada nível do comportamento necessita de partes distintas do cérebro. Esse tipo de pesquisa, onde um estímulo era utilizado para produzir um reflexo juntava-se à física mecanicista do tipo causa-efeito, combinando também com o nosso velho conhecido do texto anterior: o filósofo Descartes.
A pesquisa experimental do tipo causa-efeito também combinava com o empirismo. Os homens são moldados por suas experiência, portanto, é preciso investigar como essas experiências moldam o homem. Some-se a isso a percepção de que o observador altera a mensuração do fenômeno e estava criada a base para o desenvolvimento da psicofísica, ou a relação entre a mente e o corpo. A grande maioria das pesquisas ocorreu na Alemanha, na segunda metade do século XIX. Os experimentos mediam diferentes fenômenos, como velocidades de reação e da transmissão nervosa, que tipo de estimulação é necessária para que duas sensações sejam sentidas ao mesmo tempo, etc.
Síntese:
As filosofias dualista e empirista somadas aos estudos sobre fisiologia produziram o interesse pela investigação da relação entre mente e corpo. Por exemplo, de como diferentes estímulos produzem sensações e as diferenças de velocidade de reação e sensação entre pessoas diferentes. Estava aberto o caminho para a Psicologia.
No próximo capítulo, vou mostrar um pouco dos primórdios da Psicologia, e da criação do primeiro laboratório para o estudo da nova ciência.
Enquanto isso, vejam:
O que é a Psicologia - introdução
O que é a Psicologia - Parte 1: os primórdios filosóficos
O que é a Psicologia - Parte 2: os primórdios da biologia
O que é a Psicologia - Parte 3: o início da Psicologia I
O que é a Psicologia - Parte 4: o início da Psicologia II
3 Comments »
Os amantes de cinema podem começar a temer.
Eu já vinha reparando no fato, mas agora há dados oficiais: está aumentando a quantidade de cópias de filmes dubladas nos cinemas. A FOX no Brasil passará a ter a programação toda dublada. Qual será a próxima?
O problema das cópias dubladas é a distorção da arte, e das supostas peças artísticas. Por melhor que seja a dublagem, é impossível uma transposição perfeita dos maneirismos dos atores e de alguns trocadilhos típicos da língua da obra.
Fico me perguntando por que o aumento de cópias dubladas… Por um lado, a resposta é óbvia: vai render para as distribuidoras. Certamente há mais espectadores pedindo dublagem do que pedindo legendas. O mesmo para a FOX.
Mas por que, santa madrugada, os espectadores querem cópias dubladas?
SERÁ, MEU DEUS, QUE AS PESSOAS NÃO CONSEGUEM LER AS LEGENDAS A TEMPO DE COMPREENDEREM O PROGRAMA OU FILME?
Porque, ou é isso, ou AS PESSOAS TÊM PREGUIÇA DE LER!
Qualquer uma das duas opções é terrível. É o Brasil nivelando por baixo!
Desculpem o tom, mas
EU TENHO MEDO!
3 Comments »
Qualquer tentativa de falar sobre a Psicologia vai ter um viés. E o meu viés é a análise do comportamento.
As teorias discutidas aqui serão expostas muito rapidamente. Vários leiores não devem possuir vocabulário de Psicologia desenvolvido. Então, minha idéia é expôr as concepções principais de cada autor, ou grupo filosófico e/ou fisiolófico, e seguir em frente.
Etimologicamente falando, Psicologia é o estudo da alma. Acredito que nenhum psicólogo hoje em dia estude a alma, mas o termo permanece, e alma pode muitas vezes ser substituída por mente, inconsciente, cognição, etc. Tal substituição pode ser feita por uma razão: em maior ou menor grau, a maioria dos psicólogos atribuem a uma entidade interna o controle do comportamento. O maior ou menor grau, no caso, refere-se à importância dada ao ambiente pelas diferentas abordagens psicológicas.
A Psicologia nasceu de duas outras áreas: biologia e filosofia. Daqui para frente, a fonte de dados usada foi o livro “História da Psicologia Moderna”, de Schultz e Schultz.
Antes de chegar à Psicologia, vamos começar com a Filosofia:
Um dos filósofos que influenciou a Psicologia foi Descartes, e sua idéia de separação mente-corpo. A idéia foi herdada de Platão, que afirmava que a mente pode exercer grande influência sobre o corpo, mas o corpo não tinha muito poder sobre a mente. Além disso, Descartes fortaleceu a noção da realidade como sendo causa-efeito. Muitas das teorias psicológicas existentes hojes usam a separação mente-corpo, ainda que chamem mente de cognição, por exemplo. Parapsicólogos levaram à idéia ao extremo, afirmando que a mente pode modificar não apenas o corpo, mas interagir diretamente com o ambiente físico, ou com outras mentes. As posições de Descartes, tanto com relação à ciência simplista causa-efeito, quanto com relação à divisão mente-corpo foram superadas por outros pensamentos psicológicos.
O positivismo foi outro movimento norteador para a Psicologia. Ainda era mentalista, e afirmava que os objetos de estudo de qualquer ciência deveriam ser apenas objetos observáveis. Aplicado à Psicologia, isso quer dizer que a mente existe, mas ela não serve como objeto científico, pois não pode ser acessada. Com algumas raízes no positivismo, surgiu o empirismo, para o qual o homem é uma tábula rasa, isto é, nasce em branco e é inteiramente moldado pelo ambiente. Esta posição tão estranha hoje em dia, quando sabemos tanto sobre a influência genética sobre o comportamento, foi fundamental para a formação da Psicologia. Um dos principais defensores do empirismo e da tábula rasa foi Locke. Essas concepções também foram, felizmente, superadas.
Uma noção filosófica que mais tarde tornou-se importante para a análise do comportamento foi o pragmatismo, desenvolvido por Peirce e William James. De acordo com os autores, é impossível fazer qualquer afirmação categórica sobre a realidade. Não existem maneiras de confirmar se realmente existe alma, mente, Deus, etc. Qualquer afirmação sobre qualquer assunto está irremediavelmente impregnada de experiências pessoais. James e Peirce concluíram, então, que a única maneira de afirmar que uma teoria é melhor do que é outra é por meio da análise dos seus resultados. Isso quer dizer que o melhor conhecimento é aquele que produz melhores conseqüências. Sendo o objetivo da Psicologia explicar o homem, a melhor teoria é aquela que conseguir explicar mais comportamentos da maneira mais fácil. Essa afirmação, aparentemente tão simples, tem um corolário fenomenal: não existe melhor teoria por muito tempo, pois o título de melhor sempre será transferido para uma nova teoria, que explique mais coisas.
Na próxima parte, vou falar sobre as influências biológicas na Psicologia.
O que é a Psicologia - introdução
O que é a Psicologia - Parte 1: os primórdios filosóficos
O que é a Psicologia - Parte 2: os primórdios da biologia
O que é a Psicologia - Parte 3: o início da Psicologia I
O que é a Psicologia - Parte 4: o início da Psicologia II
5 Comments »
Vou ousar. Tentar escrever o que é a Psicologia.
Basicamente, o que faço está relacionado com Análise do Comportamento, abordagem da qual posso falar bem. Mas a Psicologia é muito maior do que isso… e um pouco assustadora, do ponto de vista científico. Não por sua dificuldade, mas por sua falta de base.
Eu vejo com inveja as áreas do conhecimento que aparecem em revistas científicas. Física, Química, Matemática, Biologia, Neurociências em geral… Por que a Psicologia não pode ser tratada dessa forma, sendo divulgada tanto para a comunidade científica geral quanto para a comunidade leiga? Sem dúvida, a comunidade leiga usa termos psicológicos, mas será que os usa corretamente?
Não sei como vai a Psicologia em outras partes do mundo. No Brasil, sei que tudo está confuso…
Para que essa série tenha melhor desenvolvimento, a participação do público é fundamental. Como eu disse, conheço a fundo apenas uma abordagem. Então, fiquem à vontade para indicar textos ou tecer críticas. Espero aprender muito com essa série de textos, e diluir alguns preconceitos.
O que é a Psicologia - introdução
O que é a Psicologia - Parte 1: os primórdios filosóficos
O que é a Psicologia - Parte 2: os primórdios da biologia
O que é a Psicologia - Parte 3: o início da Psicologia I
O que é a Psicologia - Parte 4: o início da Psicologia II
5 Comments »
|