Archive for the “Adeus, Mente” Category
Imagine um cara colocado diante de um computador. Na tela, existem um monte de figuras, que são substituídas por outras a cada 5s. Alguém diz a ele que clicar nas figuras corretas produz pontos e que esses pontos podem ser trocados por dinheiro! Olha, tenho certeza que nosso protagonista começaria a clicar em cima de todas as figuras!
Mas aí, uma coisa acontece: clicar em figuras predominantemente verdes nunca produz pontos! Mas clicar nas figuras mais azuis sempre produz pontos! Como bom cidadão que nosso protagonista é, ele passa a pressionar somente as figuras em que a cor azul domina. O verde deixa de ser interessante. A partir de um certo ponto, ele praticamente deixa de ver o verde. A vida dele é azul e seu bolso está ficando cheio!
Por que isso acontece?
Já foi dito em outro texto que a força mais poderosa da natureza é a sensibilidade dos seres vivos às conseqüências do que fazem. Sim, além do protagonista, um pombo também começaria a bicar somente as figuras azuis. Aliás, qualquer outro animal que enxergasse matizes de cores, pressionaria somente as figuras azuis! Do rato ao homem, todos os seres são controlados pelos resultados das próprias ações.
Funciona de forma bem simples: as ações que geram conseqüências “boas” para quem as realizou têm alta chance de serem repetidas. As ações que geram conseqüências ruins deixam de ocorrer. Ou seja, a idéia é que nosso comportamento é controlado pelo que vem depois dele, e não pelo que vem antes!
Mas, calma. Nenhum comportamento acontece no vácuo. Há sempre uma situação em que ele ocorre. Voltando ao exemplo do cara clicando nas figuras azuis. Nosso protagonista clica nelas porque isso produz pontos, certo? Reparem que tem mais aí. Ele clica quando as figuras são azuis, mas não quando elas são verdes. Isto é, de certo modo, ele consegue diferenciar entre ambas.
O comportamento é clicar! A conseqüência são os pontos! Mas ele só faz isso diante do azul! Nunca do verde! O azul deve controlar o comportamento dele de alguma forma!
E é isso mesmo que acontece! Como a pontuação só ocorre para o azul, o comportamento do protagonista começa a ser controlado pela cor azul! Fica melhor! Ele só é controlado pela cor azul, porque ela está correlacionada com os pontos!
É a conseqüência do comportamento (os pontos), que faz com que o comportamento volte a ocorrer, e é também a conseqüência que faz com que o azul se diferencie do verde! A conseqüência comanda o processo! No final, ficando um pouco mais técnico, temos o seguinte:
- R= a resposta do organismo (no nosso exemplo, clicar)
- SD= contexto em que a resposta ocorreu (no nosso exemplo, a cor azul)
- SR= conseqüência da resposta (no nosso exemplo, pontos)
O objeto de estudo da análise do comportamento é a relação entre esses três eventos:
SD –> R –> SR
Ou seja, o comportamento (R) é controlado principalmente pelo que acontece depois dele!
E isso também produz o primeiro elemento, O SD!
Ficou curioso? A série Adeus, Mente fala muito mais sobre isso. E terei prazer em responder a quaisquer perguntas.
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Na primeira parte, discuti os três níveis de análise considerados pelo analista do comportamento. Nesta seção, vou falar sobre o que chamamos de Seleção pelas Conseqüências e um pouco sobre a Filosofia que embasa a análise do comportamento.
SELEÇÃO PELA CONSEQÜÊNCIA
A idéia de Seleção pelas Conseqüências não foi dos analistas do comportamento. Foi Darwin que inaugurou a idéia quando descreveu a evolução da espécie. Então, vamos começar pensando nisso filogeneticamente. Uma espécie é formada por um punhado de indivíduos diferentes. Um dos benefícios da reprodução é a criação de mais indivíduos diferentes dos existentes. As diferenças são importantes, garantem o benefício da espécie.
O exemplo clássico é o do pescoço das girafas. Elas vivam em um ambiente em que sua comida ficava a uma altura X do solo. Algumas tinham um pescoço que atingia X de altura, outras que atingiam X+1, algumas X+2, e assim por diante. Agora, imaginem que a vegetação crescesse para uma altura de X+2. Todas as girafas com pescoços menores do que isso não seriam capazes de alcançar o alimento: fatalmente, morreriam de fome. As de pescoço mais comprido, por outro lado, conseguiram alcançar a comida e, assim, puderam reproduzir, criando mais girafas com pescoço comprido. Reparem que as girafas já tinham pescoços de diferentes comprimentos antes de o ambiente mudar. Reparem também que após a mudança do ambiente, somente algumas sobreviveram. Elas foram selecionadas pelo ambiente. A rigor, não foi seu pescoço que produziu a mudança no ambiente; foi a mudança no ambiente que selecionou pescoços compridos, e extinguiu os pescoços curtos.
Para o nível do aprendizado do ser não é muito diferente. Pense nos diferentes comportamentos como indivíduos. Imagine que você nunca viu uma torneira, e está com sede. Pular não resolve; correr também não. Bater na torneira é próximo do que deve ser feito, mas ainda não soluciona o problema. Somente quando você abrir a torneira haverá água. Da próxima vez que você tiver sede, a primeira coisa que fará é ir à torneira. A água, conseqüência de abrir a torneira, seleciona o comportamento de abrir. Todos os outros comportamentos serão extintos, pois não resolveram o problema da sede. Na análise do comportamento, dizemos que é a conseqüência da ação que a determina. É uma perspectiva oposta à comum, para a qual a ação ocorre determinada pelo que acontece antes dela.
Com a idéia de Seleção pelas Conseqüências, a análise do comportamento enfatiza a importância da ação humana para a constituição do indivíduo. A relação homem e mundo não é mecanicista, do tipo estímulo-resposta; o comportamento humano é mais complexo do que isso, envolve determinações probabilísticas: uma conseqüência aumenta a probabilidade de ocorrer novamente o que ocorreu antes dela. Essa idéia supera o mecanicismo e a determinação simples.
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Não sei se é bom ou ruim, mas a abordagem psicológica escolhida por mim é absolutamente diferente de todas as outras. Claro que, na minha opinião, é melhor. Vou apresentar algumas idéias para vocês.
Normalmente, textos técnicos não são muito apreciados… Não quero que este seja um post chato, então leiam com a consciência do meu esforço para escrever um texto interessante para todos. E aproveitem para aprender um pouco sobre como e por que nos comportamos. Esta nova safra surgiu devido ao fracasso da série “Adeus, Mente”, que tentou ser menas prática e mais teórica. Aproveitem:
OS TRÊS NÍVEIS DE ANÁLISE
A análise do comportamento considera os organismos em três níveis: (1) filogenético, (2) ontogenético e (3) cultural. Para analisar uma simples unidade do comportamento de um organismo é preciso, portanto, levar em conta (1) a história evolutiva da espécie, (2) os aprendizados do organismo em sua vida, e (3) as particularidades da cultura em que está inserido. Detalhando um pouco mais:
Filogenético
Nossa espécie não surgiu no mundo vinda do nada. Temos uma história evolutiva: alguns acreditam que viemos do macaco. A história da nossa espécie definiu o funcionamento do nosso corpo. Por exemplo, gostamos de açúcar porque comer açúcar provia a energia que nossos antepassados necessitavam para sobreviver. Sentimos amor, carinho e necessidade de cuidar das pessoas próximas porque cuidar e ser cuidado aumentava a probabilidade de que nossos ancestrais vivessem de forma mais segura. E assim por diante… Não há meios de analisar um comportamento sem considerar como alguns elementos desse comportamento podem ter sido relevantes para a espécie.
Ontogenético
Aprendemos durante nossa vida. Nossa espécie não está programada para atravessar a rua depois de olhar para os lados. Precisamos ser ensinados a fazer isso. Alguém tem que nos ensinar a ler e a escrever, e a sermos respeitosos. Pode parecer mentira, mas não nascemos falando. O nível ontogenético (ou de formação do ser) é o mais importante para grande parte da Psicologia. O problema é quando a Psicologia se foca apenas nele, sem considerar nível o Filogenético.
Cultural
Existe uma história clássica em um livro cujo nome não me lembro. Um rapaz de um país aceita o convite para jantar de sua amiga de outro país. Ela oferece comida a ele, ele aceita. Após terminar o prato, ela oferece novamente comida, ele aceita. E de novo. E de novo. Até que nosso mocinho tem uma intoxicação alimentar. Acontece que ela foi ensinada, de acordo com sua cultura, a sempre oferecer comida após a visita terminar de comer. Ele, por sua vez, foi ensinado a nunca recusar uma oferta de comida. Os aspectos culturais têm que ser considerados por psicólogos. Muitas vezes, as características da cultura podem ir contra o que é aceitável do ponto de vista da sobrevivência da espécie. Veja nosso protagonista, por exemplo, ignorando todos os sinais de satisfação que seu corpo lhe deu: isso provocou uma reação forte do organismo, o que levou a uma intoxicação alimentar.
Nesta primeira parte, fica, então, a idéia de analisar qualquer pessoa (organismo) em seus três níveis de determinação. Em seguida, SELEÇÃO PELA CONSEQÜÊNCIA.
PS: Descobri que um amigo habilidoso está escrevendo sobre Psicanálise. Uma espécie de tutorial, como este. Instituto de Catexia Online. Visitem. O que estão esperando?
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Eu sou um psicólogo. Dentro disto, sou um analista do comportamento. Dentro disto, utilizo uma perspectiva contextualista e pragmatista de entendimento da relação do homem com as palavras, com a vida, com o universo e tudo o mais.
Sendo que o tema é usualmente chato para os outros, serei breve como um relâmpago em uma chuva de verão, na qual ele tem a mesma velocidade do que um relâmpago em qualquer tipo de chuva. Mentira, não serei tããão breve assim, pois o assunto é difícil. Vale a pena se inteirar dele, no entanto, porque diz respeito a pessoas enquanto pessoas.
Primeiro de dois. Todo mundo precisa compreender que as palavras são inventadas. Elas não existiam antes dos homens e não são as coisas que elas nomeiam. Pode não parecer, mas um verbo também é um nome (de uma ação). Os homens inventam as palavras porque por meio delas podem operar eficientemente sobre a realidade, podem mudar o que outras pessoas fazem, e porque podem se comunicar. Elas são inventadas de acordo com uma série de fatores de uma situação. As palavras não são a situação! Os nomes são dados de acordo com uma relação do homem com uma situação. É fácil, pensando no dito acima, entender que não existe uma coisa chamada “mente”. Existe um nome (”mente”) usado pelas pessoas em determinadas situações, e isso permite que lidem com tais situações. Não há por que pensar que existe de fato a coisa que o nome nomeia.
Segundo de dois. Não existe uma teoria, ou religião, que seja uma verdade completa. Todas elas devem ser entendidas dentro dos contextos em que apareceram. Não está correto dizer que a religião de uma tribo pequena é inferior ao de uma tribo grande, nem é preciso fazer qualquer tipo de comparação desse tipo. Uma teoria, ou religião, ou o que for, é boa se for boa para quem a utiliza. Nenhuma delas representa uma realidade externa ao homem de forma fidedigna. Todas elas são feitas por homens, que se relacionam de maneiras particulares com o mundo. Nenhuma teoria ou religião é uma verdade, elas são sempre aproximações à realidade. Quando se trata de ciência, o esperado é que as teorias se modifiquem de acordo com os dados das pesquisas. Todos os conhecimentos, baseado no que foi dito acima, devem ser considerados válidos, tendo seus graus de eficiência determinados pelas condições em que os conhecimentos são utilizados. A partir de agora vamos deixar de lado a religião e falar apenas da ciência e da sua regra máxima: construir um conhecimento cada vez mais eficiente.
Exemplo dos dois parágrafos. É possível dizer que a chuva é obra de um Deus. É possível dizer que a chuva é produzida por algumas condições atmosféricas, e pensando assim pode-se prever a chuva com mais eficiência. É possível dizer que a mente controla alguns comportamentos. É possível dizer que determinados comportamentos ocorrem em algumas condições e em outras não. Pensando deste segundo modo, pode-se prever comportamento. Mais especificamente: podemos dizer que um irmão bateu no outro porque ficou com raiva (mas aí teríamos que explicar o que é raiva). Podemos dizer que um irmão bateu no outro porque o primeiro roubou seu doce, e que nesse tipo de situação, agressões são prováveis. Nem precisamos citar mente, raiva, consciência, etc.
Conclusão. O nome “mente” é apenas uma forma de lidar com a realidade. Pode ser a maneira mais eficiente, ou pode não ser. Tudo indica que é um nome dispensável. O nome mostrou muitas vantagens por muitos anos, mas do ponto de vista científico, utilizar “mente” não parece mais valer a pena. Não há por que lidar com os homens como se eles tivessem um tipo de acessório produtor de pensamentos, sentimentos, consciência, etc. Podemos lidar com os homens de maneira mais eficiente se deixarmos de lado o conceito de “mente” e utilizarmos descrições de situações em que os comportamentos acontecem. Além disso, substituir substantivos, como “pensamento”, por verbos, como “pensar”, é algo desejável, do ponto de vista da eficiência em lidar com os homens.
Ficou curioso e quer saber mais sobre isso? Leia os textos sob a rubrica “Análise do Comportamento” e “Adeus, Mente”. Ambos na coluna da esquerda. Eu parei com a série “Adeus, Mente” porque ninguém a lia. Eu sei que não é o assunto mais divertido do mundo, mas pense que fala diretamente sobre como as relações humanas podem descritas daqui a alguns anos. Caso queiram que eu continue com a série “Adeus, Mente”, deixem um recado aqui.
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A ciência humana que utiliza a perspectiva que estou descrevendo segue uma filosofia que se chama pragmatista. Os pragmatistas não se importam com a verdade absoluta, pois acreditam que se tal coisa existir é praticamente impossível descobri-la. Então, verdades são relativas e mutáveis, e devem ser “escolhidas”. A melhor escolha é uma verdade (sempre temporária) que permite maior quantidade de efeitos práticos desejáveis. Assim, não importa se existe mente, cognição, etc. O importante é que quando esses conceitos são dispensados, as pessoas podem ser entendidas de maneira mais efetiva, em uma ciência coerente. Se um dia o conceito de mente se mostrar mais efetivo, então os pragmatistas vão utilizá-lo.
O problema com a palavra mente e os substantivos relacionados a ela ocorre quando o uso constitui uma ficção explanatória, ou seja, uma explicação que na realidade não explica. Voltando ao exemplo de “Pedro bateu no irmão porque tinha raiva”, a raiva, supõe-se, explica a ação de Pedro. Mas é fictícia, no sentido de que na realidade utiliza um nome no lugar de realmente mostrar as causas da ação.
Acontece que se a palavra mente for usada em uma situação em que não constitui uma ficção explanatória, então não há por que dispensá-la. Se, por exemplo, fosse explicitado que raiva, no caso, referia-se aos eventos “roubo do doce” e “pisão no pé”, não haveria problema em utilizá-la. Mas como vêem, a palavra tem que ser explicitada. É mais fácil descrever a situação, apenas.
É importante definir o que a perspectiva que descrevo entende por fenômeno, ou evento, psicológico. Um evento psicológico é uma ação humana (privada ou pública) em relação com o ambiente (privado ou público). É ação em relação com ambiente. Isto quer dizer que uma ação tomada isoladamente não é um evento psicológico, e que uma mudança no ambiente tomada isoladamente não é um evento psicológico.
O melhor exemplo é o do reflexo pupilar. O reflexo pupilar é um fenômeno psicológico; significa a relação entre a abertura da pupila e a mudança de luz no ambiente. A contração/dilatação da pupila não é um evento psicológico, mas sim objeto de estudo da fisiologia. Por sua vez, a mudança de luz é um fenômeno da área da física. Apenas a relação entre luz/abertura-da-pupila é um evento psicológico. Diz-se que a abertura/fechamento da pupila é função da quantidade de luz no ambiente.
O mesmo vale para eventos mais complexos. Dizer “bom dia” é um movimento mecânico das cordas vocais em consonância com movimentos da língua. Uma pessoa caminhando em sua direção é também um movimento mecânico. A relação entre a pessoa caminhando, “avistar” essa pessoa e dizer “bom dia” é um evento psicológico. Dizer “bom dia” a uma cadeira, ou a si mesmo em frente ao espelho, é um fenômeno psicológico, pois há relação entre a ação de dizer e o ambiente (seja a cadeira, ou a imagem no espelho).
A valorização do contexto é, portanto, ponto chave na perspectiva que descrevo. Por se preocupar com a relação, a estrutura do movimento tem papel secundário. O principal a ser estudado em um evento psicológico é a função que exerce. No caso do bom dia, por exemplo, acenar com a mão, mover a cabeça para cima e para baixo, dizer “bom dia”, dizer “opa”, são todos considerados como sendo o mesmo evento psicológico. Apesar de terem diferenças de forma, são idênticos em função: mostrar à pessoa que está tudo bem, deixar claro que ela foi vista ou, resumindo, cumprimentar a pessoa.
Há um adendo. Sendo que nenhum evento pode ser igual ao outro, diz-se que o evento de cumprimentar uma pessoa é uma classe de evento psicológico. Ainda que em todas as vezes a forma da ação seja um aceno com a mão, cada aceno tem uma velocidade, inclinação, duração diferentes. O conceito de classe, então, deixa claro que os eventos são formalmente diferentes entre si, mas têm a mesma função.
No próximo, texto, duas questões centrais: conseqüências e controle de estímulos.
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